domingo, 11 de setembro de 2011

O BALÉ DE CORTE - um pouco de história da dança


Aquele que vos domina tanto só tem dois olhos, só tem duas mãos, só tem um corpo, e não
tem outra coisa que o que tem o menor homem do grande e infinito número de vossas cidades,
senão a vantagem que lhe dais para destruir-vos. De onde tirou tantos olhos com os quais vos
espia, se não os colocais a serviço dele? Como tem tantas mãos para golpear-vos, se não as
toma de vós? Os pés com que espezinha vossas cidades, de onde lhe vêm senão dos vossos?
(...) Semeais vossos frutos para que deles faça o estrago; mobiliais e encheis vossas casas
para alimentar suas pilhagens; criais vossas filhas para que ele tenha com que embebedar sua
luxúria, criais vossos filhos para que ele faça com eles o melhor que puder, leve-os em suas
guerras, conduza-os à carnificina, torne-os ministros de suas cobiças e executores de suas
vinganças; (...). Decidi não mais servir e sereis livres...

La Boétie

Uma profunda transformação cultural artística e observada nesse curto período histórico que denominamos renascimento. Essa ruptura impulsionada principalmente pela Itália e por italianos fixados na França. A vida urbana o crescimento do comercio demonstram o nascimento de um homem individualista, humanista e hedonista. O corpo dessa época retoma as formas do passado da antiguidade clássica. Não apenas o corpo, mas os valores e as historias. O Quatroccento e o Cinquento desabrocham em uma corte ainda não enrijecida pela a etiqueta.

As danças de corte eram executadas como coreografias, sempre da mesma forma, e deviam ser aprendidas por todos os nobres. Cada coreografia possuía um nome, como o Pas de Brébant e o Bransle franceses, o Canário, a Chacona e a Passacale vindos da Espanha, e a Pavana, o Pazzo mezzo e a Volta italianas. Essa última, a Volta, era considerada uma dança imoral, porque os cavalheiros seguravam as damas proximamente de seus corpos, giravam sobre si mesmos fazendo-as saltarem, numa espécie de carregada. Com esse movimento, as longas saias levantavam-se e mostravam parte dos tornozelos. Essa dança pode ser vista no filme "Elizabeth" que concorreu ao Oscar em 1999, onde Cate Blanchet (Rainha Elizabeth) e Robert Fiennes (Lorde Robert) executam os passos diante da corte boquiaberta!






O profissionalismo na dança eleva o nível técnico sendo a execução do passo feito pelos membros da corte e pelos profissionais. A separação da arte em popular/nobre se torna cada vez mais enfatizada e com a dança da corte. Observamos o nascimento de uma arte erudita onde não há apenas uma metrificação, há passos específicos dentro da métrica do corpo e da música. Vários mestres de Balé como Domnico de Pienza e Cesare Negri estruturam passos e regras de colocação. Com o advento da imprensa é possível a criação de librettos e a construção de uma memória e uma tradição desses métodos. A vida na corte se elabora com um refinamento dos comportamentos com o objetivo de refinamento de gestos e ações. Dentro das danças podemos citar como exemplos a baixa dança, a alta dança, canario , a chacona, a pavana, o pazzo mezzo, a galharda, a gavota. Todavia a estruturação do bale de corte com música, cenário, poesia e ação dramática vem com um contexto de afirmação e adulação da pessoa do rei. Os bales
representavam fatos políticos e ate mesmo romances. Estruturas coreográficas como formas geométricas, letras são observadas e a estrutura do cenário é normalmente rica em maquinarias. São organizados em arquibancada onde os bales são vistos por cima.
A partir de 1600 o bale de corte francês se espalha por toda a corte européia. músicos, professores , bailarinos. A profissionalização da profissão é cada vez mais marcante e os passos mais complicados e com um grau técnico mais elevado. Embora o nome bale de corte, ele toma suas próprias pernas rápido saindo da corte com empresários como Horace Morel. Uma arte rigorosa e artificial surge com as danças de corte e os bales de corte.
Esse envolvimento com a adulação do rei e da valorização da forma dentro da dança, que nasce nas cavernas como algo espontâneo é sua separação da expressão. A liberdade do movimento se encontra em conjunto com a manipulação e o jogo de poder da corte. A questão apontada dentro do texto de La Boétie comenta sobre a submissão em forma iludida e lúdica dos homens. Esse questionamento trago com La Boétie é necessário principalmente na educação e na metafísica dos modos e costumes de etiquetas no contexto do qual o nascimento do bale é profundamente envolvido.

Bibliografia

BOUCIER, Paul. Historia da dança no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
LA BOETIE, Etienne de; CLASTRES, Pierre; LEFORT, Claude; CHAUI, Marilena de
Souza. Discurso da servidão voluntaria. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

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